O que fazes aqui?
Quem te pôs neste corpo?
Se de ti não sentem falta?
Dores dilacerantes em teu peito.
Tanto tempo gasto para livrar-te destes fantasmas.
Eles ainda te perseguem, palavras sibilam em teus ouvidos como chicotes rasgando-te as carnes.
Tu não tens nada, tu não és nada.
Queres voltar ao lugar de onde viestes.
Alma tola! Não sabes o caminho...
Precisas voltar, invejas quem volta!
Rompe o silêncio, grita teus segredos!
Sem medo, sem culpa, sem rodeios, sem falsos pudores.
Fala desse desejo louco, insano talvez, quem o sabe?
Solta o suspiro velado, o gemido tantas vezes abafado.
De revolta cruel, de prazeres contidos, de doídas dores.
Grita a ira dos amantes incautos, profanos.
Que feridas causaram, cicatrizes deixaram, por querer.
Brada aos quatro ventos que estais pronta e esperas.
Que não tens mais receios, amadurecestes sem envelhecer.
Queres amores grisalhos, sofridos, maduros, que como tu, viveram e cresceram.
Que tiverem medo e agora não mais.
Experimentando tudo o que faz um vir a ser. (Penélope Freitas)
Desalento
Às vezes oiço rir, e 'ma agonia
Queima-me a alma como estranha brasa.
Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia
Que me põe n'alma o fogo que m'abrasa!
Tenho sede d'amar a humanidade...
Eu ando embriagada... entorpecida...
O roxo de meus lábios é saudade
Duns beijos que me deram noutra vida!
Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
De só saber chorar, de ser assim...
Gosto da noite, negra, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!
(Florbela Espanca)
Eu ando embriagada... entorpecida...
O roxo de meus lábios é saudade
Duns beijos que me deram noutra vida!
Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me vejam nos olhos o segredo
De só saber chorar, de ser assim...
Gosto da noite, negra, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!
(Florbela Espanca)

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